História2009—HojeBrasília, BrasilDesign / Produto

O design como forma de compreender o mundo

Minha história no designnão começou por uma especialidade.Começou pela curiosidade.

Registros em preto e branco do processo de criação e pesquisa visual de Thalyson
Pesquisa, referências e processo de criação

Ao longo dos anos, atravessei diferentes territórios — o editorial, a identidade visual, a tipografia, a caligrafia, o ambiente digital e o design de produtos — sem enxergá-los como caminhos separados. Cada nova área ampliou meu repertório e transformou a maneira como observo, organizo e materializo ideias.

Antes de projetar produtos digitais, aprendi a construir páginas. Antes de criar sistemas, aprendi a respeitar as letras. Antes de pensar em escala, aprendi o valor do gesto, da matéria e do detalhe.

Esta é a história de uma vida dedicada ao design.

01

Capítulo 1

O início de tudo

Pouco antes de iniciar a graduação em Design Gráfico no Centro Universitário IESB, meus pais me matricularam na SAGA, uma escola de computação gráfica muito conectada ao universo dos games.

Foi ali que o computador deixou de ser apenas uma ferramenta e passou a representar um campo inteiro de possibilidades. Comecei a perceber que imagens, interfaces, objetos e narrativas não surgiam por acaso: alguém precisava imaginá-los, organizá-los e construí-los.

A curiosidade despertada naquele período me levou à graduação e, pouco tempo depois, ao meu primeiro trabalho na área.

Ainda durante a faculdade, comecei a trabalhar na Comunidade Editora. O ambiente reunia jornalismo, moda, publicidade e produção editorial. Entre páginas de jornais, revistas e conteúdos digitais, tive contato com diferentes formas de organizar a informação e comecei a compreender como as decisões visuais influenciavam a leitura, o ritmo e a percepção de uma mensagem.

Atuei também como web designer no Portal da Comunidade e em uma publicação de moda ligada ao jornal. Mesmo naquele início, minha rotina já transitava entre o impresso e o digital — duas dimensões do design que, naquele momento, pareciam distantes, mas que mais tarde se encontrariam novamente na minha trajetória.

Capítulo 01

Primeiros estudos,
símbolos e páginas

Construção geométrica de um símbolo gráfico
02Primeiros estudos de identidade e construção visual
Construção geométrica e versão final de símbolo ornamental
02.1Construção de símbolo
Monograma ornamental preto dentro de uma forma circular
02.2Monograma
Estudo geométrico de construção de letras sobre papel
02.3Estrutura e proporção
Projeto editorial aberto com composição tipográfica amarela e preta
02.4Experimentação editorial

Enquanto aprendia profissionalmente, criava também meus próprios espaços de experimentação.

Ao lado de Artur Cabral, desenvolvi o Opia, um pequeno estúdio autoral nascido do desejo de produzir um design mais próximo das referências que admirávamos e das boas práticas que estudávamos. Éramos jovens designers tentando encontrar uma voz própria, profundamente influenciados pelo modernismo, pela Bauhaus e pela ideia de que forma, função e pensamento deveriam existir como partes inseparáveis de um projeto.

O Opia não era apenas um estúdio. Era uma espécie de laboratório.

Criávamos identidades, experimentos gráficos e projetos que nem sempre dependiam de um cliente. Também organizamos um grupo de estudos sobre filosofia do design, do qual surgiram publicações independentes, ensaios e testes editoriais. Mais do que buscar respostas, queríamos aprender a formular perguntas melhores sobre aquilo que fazíamos.

Foi nesse período que comecei a entender que o design não se limitava à aparência das coisas. Ele poderia ser, ao mesmo tempo, linguagem, investigação e posicionamento diante do mundo.

02

Capítulo 2

Aprender a construir sistemas

Ao deixar a Comunidade Editora, participei de um processo seletivo para uma vaga de estágio em Design Gráfico no Conselho Federal de Administração. Depois de uma prova e das demais etapas de seleção, comecei uma experiência que mudaria minha compreensão sobre a responsabilidade do design.

No Conselho, encontrei um cenário muito diferente dos projetos autorais da faculdade.

O design precisava funcionar dentro de uma instituição nacional, dialogando com regras, diferentes públicos, estruturas administrativas e necessidades de comunicação muito específicas. Foi onde comecei a desenvolver fundamentos para trabalhar em contextos institucionais e corporativos, orientado por dois profissionais que tiveram um papel importante na minha formação: Luiz Lima e Herson Freitas.

Com eles, aprendi que um projeto começa muito antes dos primeiros esboços.

Começa na compreensão do problema, na organização das informações, na definição de critérios e na construção de documentos capazes de sustentar as decisões. Em um ambiente naturalmente burocrático, percebi que o design poderia criar clareza, consistência e unidade.

Essa experiência me ensinou algo que permanece presente no meu trabalho até hoje: criatividade e estrutura não são forças opostas. Os melhores resultados aparecem quando uma fortalece a outra.

Ao final do estágio, fui indicado por Péricles Silva, grande amigo da faculdade, mentor e inspiração profissional, para trabalhar em um estúdio especializado em design editorial.

A oportunidade parecia uma continuação natural de algo que já havia começado no Jornal da Comunidade. Mas, dessa vez, pude mergulhar de maneira muito mais profunda no universo das publicações.

Entre livros, revistas e outros projetos editoriais, aprendi a observar a página como um sistema. Passei a compreender melhor o papel das grades, das proporções, dos espaços em branco e, principalmente, da tipografia.

Uma publicação não é apenas uma sequência de páginas. É uma experiência conduzida por ritmo, contraste, hierarquia e silêncio. Cada decisão interfere na maneira como o conteúdo é percebido.

A tipografia deixou de ser, para mim, apenas um recurso de composição e passou a ocupar o centro do projeto. Comecei a enxergá-la como voz, estrutura e matéria visual.

Durante uma disciplina da faculdade, essa curiosidade se aproximou da caligrafia. Sob a orientação do professor Rafael Dietzsche, que se tornou uma referência fundamental na minha formação tipográfica, comecei a estudar as origens das letras, suas ferramentas e seus movimentos.

O que inicialmente parecia apenas mais um campo de estudo se transformaria, pouco tempo depois, em uma das experiências mais profundas da minha carreira.

03

Capítulo 3

A letra, o gesto e a construção de uma voz

Concluí a graduação carregando uma profunda paixão pela tipografia e pela caligrafia.

Eu já estudava e praticava caligrafia havia pelo menos dois anos. Existia uma afinidade natural com o gesto, mas também uma dedicação crescente ao entendimento das ferramentas, dos alfabetos históricos, das proporções e da anatomia das letras.

Decidi, então, deixar o estúdio editorial para me dedicar mais intensamente a esse universo.

Mais uma vez, Artur Cabral teve um papel fundamental nessa trajetória. Foi com a sua ajuda que organizei e ministrei meu primeiro curso de caligrafia fundamental. O que começou como uma experiência entre pessoas próximas ganhou estrutura, público e novas possibilidades.

Pouco tempo depois, fui convidado a dar aulas de caligrafia artística na Escola Casa das Artes, em Brasília. O trabalho também recebeu o patrocínio da Corfix, uma importante marca brasileira de materiais artísticos.

Ensinar transformou minha relação com a própria prática.

Para explicar um gesto, eu precisava compreendê-lo. Para demonstrar uma letra, eu precisava reconhecer sua lógica. As aulas me obrigaram a transformar conhecimentos intuitivos em métodos que outras pessoas pudessem aprender e reproduzir.

Ao mesmo tempo, mantive uma carreira independente como designer. Atendi projetos editoriais, identidades visuais, embalagens, campanhas e trabalhos tipográficos e caligráficos.

Foi uma fase de enorme liberdade criativa e diversidade técnica.

Desenvolvi letras completamente exclusivas para marcas e campanhas, criei composições caligráficas, logotipos desenhados à mão e até uma tipografia Fraktur original. Cada trabalho exigia uma relação diferente entre história, linguagem, técnica e personalidade.

A caligrafia me ensinou a importância do gesto. A tipografia, a importância do sistema. O design de marcas mostrou como essas duas dimensões poderiam construir significado.

Em meados de 2018, durante um projeto para uma cervejaria de Brasília, conheci André Castro. Nossas conversas rapidamente ultrapassaram os limites daquele trabalho e começaram a revelar uma insatisfação compartilhada com parte do design que encontrávamos no mercado.

Lembro-me especialmente de uma reunião de apresentação de uma identidade visual desenvolvida por outro estúdio. Era um estúdio que eu admirava desde a faculdade, e talvez por isso a decepção tenha sido ainda maior. Saímos daquela reunião com a sensação de que poderíamos construir algo diferente — projetos com mais profundidade, personalidade e proximidade com os clientes.

Foi dessa inquietação que nasceu a Ponto Bloco.

Criamos o estúdio com o propósito de desenvolver marcas e experiências digitais que não fossem apenas visualmente atraentes, mas particulares a cada negócio. Queríamos fugir de soluções automáticas e criar trabalhos reconhecíveis pela qualidade, não pela repetição de uma fórmula.

Vieram inúmeros projetos, desafios, conquistas e aprendizados. A Ponto Bloco me ensinou sobre clientes, contratos, posicionamento, apresentações, vendas, processos, prazos e gestão. Aprendi a defender ideias, conduzir projetos e transformar um trabalho criativo em uma operação.

Mas, aos poucos, a rotina do estúdio também me afastou daquilo que mais me movia.

Eu havia me tornado gestor de uma empresa de design, mas já participava menos da execução do design. A caligrafia, a tipografia e o fazer manual passaram a ocupar um espaço cada vez menor nos meus dias.

Em 2020, tomei a difícil decisão de deixar a Ponto Bloco e voltar ao mercado.

Não foi um abandono. Foi uma reconexão.
Eu precisava voltar a projetar.

04

Capítulo 4

O reencontro com o digital

Em 2020, entrei para a NewDS, uma agência de São Paulo, como designer de produto.

Embora o cargo representasse um novo momento na minha carreira, o ambiente digital não era inteiramente novo. Eu trazia a experiência dos primeiros trabalhos como web designer na Comunidade Editora e dos sites, aplicativos e e-commerces que havia criado durante os anos da Ponto Bloco.

A diferença era a profundidade.

Na NewDS, mergulhei definitivamente no design de produtos digitais. Trabalhei ao lado de Victor Sales em três projetos internacionais, enfrentando problemas que exigiam muito mais do que a criação de boas interfaces.

Era preciso compreender comportamentos, fluxos, contextos de uso, limitações tecnológicas e objetivos de negócio. As telas eram apenas a parte visível de um sistema muito maior.

Interfaces de aplicativo para serviço de bicicletas compartilhadas
Produto digital — interfaces e experiência

Mais uma vez, me encantei por uma nova dimensão do design.

Percebi que tudo aquilo que eu havia aprendido continuava presente.

O design editorial aparecia na hierarquia e na organização das informações. A tipografia orientava a legibilidade e a personalidade das interfaces. A experiência com marcas ajudava a criar produtos coerentes e reconhecíveis. A gestão de estúdio contribuía para a comunicação com clientes, equipes e negócios. A caligrafia, de uma maneira menos óbvia, continuava me lembrando do valor da precisão, do ritmo e da intenção por trás de cada gesto.

Minha multidisciplinaridade não era uma coleção de experiências desconectadas. Era o que me permitia observar um produto por diferentes perspectivas.

A partir daquele momento, o design de produto se tornou o espaço onde todas essas trajetórias finalmente se encontraram.

05

Capítulo 5

Produtos, sistemas e decisões

Nos anos seguintes, aprofundei minha atuação em design de produto, trabalhando em plataformas, serviços e sistemas digitais cada vez mais complexos.

Passei a participar de todo o ciclo de construção de um produto: investigação, definição de problemas, pesquisa com usuários, arquitetura da informação, prototipação, testes de usabilidade, interfaces, design systems, documentação e acompanhamento da implementação.

O trabalho deixou de estar concentrado em uma peça ou em uma tela. Passei a projetar relações entre pessoas, informações, tecnologia e negócio.

A experiência acumulada em diferentes áreas me permitiu assumir uma atuação técnica e estratégica sem me distanciar da prática. Posso discutir a visão de um produto com lideranças, estruturar um processo de pesquisa, construir um sistema visual e, em seguida, trabalhar cuidadosamente sobre a hierarquia tipográfica de uma única interface.

Foi também nesse contexto que comecei a atuar como referência técnica e liderança em design e produto, ajudando equipes a transformar problemas pouco definidos em projetos mais claros, documentados e executáveis.

Capa do case Visum apresentando a interface do produto
Visum — dados e inteligência artificial para apoiar decisões

Entre essas experiências está a construção do Visum, uma plataforma orientada por dados e inteligência artificial para redes de restaurantes. Um produto que reuniu pesquisa, estratégia, dashboards, integrações, design system, inteligência artificial e uma enorme quantidade de decisões sobre como transformar dados complexos em informações realmente úteis.

Projetos como esse representam o ponto de encontro de toda a minha trajetória.

Neles estão a disciplina editorial, o pensamento sistêmico aprendido no ambiente institucional, o rigor tipográfico, a sensibilidade construída pela caligrafia, a visão de marca desenvolvida no estúdio e a capacidade de trabalhar com tecnologia adquirida ao longo dos anos de design de produto.

Hoje, depois de atravessar tantas áreas, não vejo minha carreira como uma sequência de mudanças.

Vejo como uma construção contínua.

Cada fase acrescentou uma nova camada à minha forma de trabalhar. O designer editorial ainda está presente quando organizo informações. O calígrafo aparece na atenção ao detalhe. O designer de marcas me ajuda a construir identidade. O gestor compreende os limites do negócio. O designer de produto conecta todas essas partes em experiências que precisam funcionar no mundo real.

ContinuaPróximo capítulo

O próximo capítulo

Depois de tantos anos, continuo estudando design com a mesma curiosidade do início.

Ainda me interesso pelas letras, pelas páginas, pelas marcas, pelos objetos, pelos sistemas e pelas interfaces. Ainda acredito que um bom projeto nasce da capacidade de observar com atenção, fazer as perguntas certas e dedicar tempo suficiente para compreender aquilo que se pretende transformar.

Minha trajetória não foi construída em linha reta. Foi formada por encontros, inquietações, mudanças de direção e pela vontade constante de aprender um pouco mais.

Talvez seja justamente isso que defina meu trabalho.

Não pertenço a uma única área do design. Carrego todas elas comigo.

E cada novo projeto é uma oportunidade de reuni-las novamente.

Composição visual com dados e mapa de São Francisco do Sul
Dados, sistemas e novas formas de compreender contextos
Arquivo abertoEstudos autorais

Projetos conceituais

Um espaço para experimentos, investigações visuais e projetos que existem para explorar novas possibilidades.

Estudo 01 — imagem a inserir
Estudo 02 — imagem a inserir
Estudo 03 — imagem a inserir
Estudo 04 — imagem a inserir
Estudo 05 — imagem a inserir
Estudo 06 — imagem a inserir